O nível de vulnerabilidade alimentar influi a forma como as populações amazônicas percebem os benefícios gerados pela natureza. Comunidades em situação de insegurança alimentar severa concentram sua percepção quase exclusivamente em serviços ecossistêmicos relacionados à provisão imediata – ou seja, o alimento no prato. Já grupos menos vulneráveis conseguem reconhecer uma diversidade maior de benefícios, como a regulação do clima, valores culturais, espirituais e lazer. Essa é a conclusão de uma das pesquisas do programa AmazonFACE, publicada no periódico científico Ecosystem Services nesta quarta (28).
Com abordagem multidisciplinar, o estudo baseou-se em 216 entrevistas semiestruturadas com moradores locais, ribeirinhos e indígenas e cruzou esses relatos com dados secundários sobre o uso e cobertura do solo. O trabalho de campo foi conduzido em três municípios do Amazonas que representam diferentes níveis de vulnerabilidade alimentar: Manaus, classificada como média; Carauari, como média-alta; e Tabatinga, como muito alta. Essa comparação permitiu aos pesquisadores observar como as necessidades básicas influenciam a relação das pessoas com o ambiente.
O artigo destaca que a percepção local funciona como um “alerta precoce” para ameaças ambientais, como a poluição da água e a escassez de peixes, que nem sempre são captadas por dados de satélite. “Essa pesquisa pode ajudar a tornar as políticas públicas mais eficazes e mais justas”, pontua a bióloga Ana Luisa de Carvalho Cruz, atualmente analista do Laboratório Nacional de Biorenováveis/CNPEM e líder da pesquisa. “Ela mostra a conexão entre conservação e segurança alimentar e que as ações relacionadas devem ser pensadas a partir da realidade de quem vive no território, e não apenas baseadas em dados técnicos de literatura. O que as pessoas sinalizam revela a necessidade real delas”.
Para a equipe, os resultados desafiam a ideia de que a alta biodiversidade, por si só, garante segurança alimentar. A segurança alimentar, apontam os autores, depende de fatores frequentemente ignorados em análises puramente biológicas, como a forte sazonalidade dos recursos naturais (com variação da disponibilidade ao longo do ano) e a dependência de mercados externos para suprir necessidades básicas.
Cruz também explica que um aspecto fundamental do projeto, que já vem sendo realizado, é a divulgação dos resultados para a própria comunidade, para que a ciência faça sentido na vida das populações que participaram diretamente da construção do conhecimento. Esse retorno é realizado por meio de materiais acessíveis e didáticos, como vídeos e folhetos informativos, que sintetizam os benefícios percebidos e as ameaças identificadas pela pesquisa. Além de validar a contribuição dos moradores, esses resumos permitem que diferentes comunidades compartilhem estratégias de adaptação a problemas ambientais.
Os próximos passos da pesquisa incluem investigar de forma mais aprofundada as pressões ambientais e climáticas que geram escassez, além de mapear as estratégias de adaptação já adotadas pelas comunidades. “Olhar para essas adaptações é fundamental para entender o que funciona, o que não funciona e como tornar as decisões mais inclusivas e eficazes”, destaca Cruz. A expectativa é que, por meio do AmazonFACE, os resultados fortaleçam a interface entre ciência e tomada de decisão, contribuindo para políticas públicas mais alinhadas às realidades locais.
- Equipe de pesquisadores em campo
- Equipe de pesquisadores em campo
- Equipe de pesquisadores em campo
- Localização das áreas amostradas no município de Manaus – O Mapa A mostra, em pontos vermelhos, a localização das comunidades entrevistadas, bem como as Áreas Protegidas (APs) do município: o amarelo indica áreas de Uso Sustentável; o verde indica áreas de Proteção Integral; e o marrom indica Terras Indígenas. Os principais rios estão representados em azul. Fonte: ANA (2010); FUNAI (2021); MMA (2020). Fotos B, C e D: Imagens das comunidades entrevistadas na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Puranga-Conquista, Manaus. Foto B: Vista do pátio central da comunidade Barreirinha. Fotos C e D: Vistas internas da comunidade São Sebastião. Fontes das imagens: membros do projeto (B – autor; C e D – Beatriz Tristão).
- O Mapa A mostra, em pontos vermelhos, a localização das comunidades entrevistadas, bem como as Áreas Protegidas (APs) do município: o amarelo indica áreas de Uso Sustentável e o marrom indica Terras Indígenas. Os principais rios estão representados em azul. Fonte: ANA (2010); FUNAI (2021); MMA (2020). Fotos B, C e D: Imagens das comunidades entrevistadas em Carauari. Foto B: Comunidade Barreirinha (sob jurisdição do INCRA). Foto C: Sistema de abastecimento de água da comunidade Nova Esperança. Foto D: Estrada de acesso à comunidade Nova Esperança. Fontes das imagens: membros do projeto (B – Tiago Jacaúna; C e D – Júlia Menin)
- O Mapa A mostra, em pontos vermelhos, a localização das comunidades entrevistadas, bem como as Áreas Protegidas (APs) do município, nas quais o marrom indica Terras Indígenas. Os principais rios estão representados em azul. Fonte: ANA (2010); FUNAI (2021); MMA (2020). Fotos B, C e D: Imagens dos locais onde foram realizadas as entrevistas em Tabatinga. Foto B: Mercado Tikuna. Foto C: Vista da cidade na fronteira com Letícia, Colômbia. Foto D: Entrada da sede do Sindicato dos Trabalhadores Rurais. Fontes das imagens: membros do projeto (B – Marko Monteiro; C – Beatriz Xavier; D – Júlia Menin).
- A Imagem A mostra uma entrevista realizada em uma comunidade rural de Carauari, destacando a interação entre pesquisadores e participantes em um contexto tradicional. As Imagens B, C e D retratam entrevistas conduzidas em comunidades de Manaus. Essas imagens ilustram o processo de coleta de dados em campo e a estreita interação entre pesquisadores e moradores locais, essencial para a compreensão das percepções e práticas locais. Fontes das imagens: membros do projeto (A – Maíra Padgurschi; B – Marko Monteiro; C e D – Beatriz Xavier).
DOI: https://doi.org/10.1016/j.ecoser.2025.101807
Fonte: Agência Bori








