sábado, 7 março 2026
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Estudo da UFRJ mostra como a Petrobras concilia investimento em petróleo e discurso de energia limpa

Uma análise dos planos de negócio e estratégicos da Petrobras publicados nos últimos 15 anos indica que a empresa faz investimentos pontuais em energias limpas ao mesmo tempo em que aumenta a produção de petróleo. A estratégia da estatal é compensar suas emissões de poluentes com investimentos em produtos menos poluentes sem reduzir a produção de combustíveis fósseis. Politicamente, ela age para manter seu negócio central, embora posicione-se em campanhas de comunicação como uma companhia que investe em energia limpa. Esses são alguns dos achados do estudo Posicionamento estratégico da Petrobras diante dos desafios da transição, publicado na sexta (7), com autoria de Marcelo Colomer, consultor associado do Instituto de Economia da UFRJ e membro do projeto DIP (Decarbonization and Industrial Policy) do Grupo de Indústria e Competitividade do Instituto de Economia da UFRJ.

Os pesquisadores fizeram uma análise qualitativa e quantitativa dos Planos de Negócios e Estratégicos da Petrobras de 2009 a 2025. Os autores desenvolveram um sistema de pontuação próprio (scoring) para avaliar o grau de comprometimento da empresa em estratégias de diversificação classificadas em quatro grupos. A pontuação distingue as iniciativas pela similaridade das capacitações técnicas e da infraestrutura para energias limpas com o negócio principal.

Os grupos 1 (biocombustíveis e eólica offshore) e 2 (captura e armazenamento de carbono e hidrogênio azul) exploram alta similaridade técnica ou de infraestrutura. Já os grupos 3 (solar e eólica onshore) e 4 (recarga elétrica e hidrogênio verde) pedem competências distintas ou infraestruturas diferentes das de produção de combustível fóssil.

Nesse esquema, a Petrobras aparece bem posicionada para a produção de energia eólica offshore. Segundo Carlos Frederico Leão Rocha, coordenador do DIP-UFRJ, “além da experiência como operadora, ela tem conhecimento de geologia da região do entorno do Brasil que é bastante especial”.

Os resultados da pesquisa jogam luz sobre o paradoxo em que estão inseridas as empresas petrolíferas que tentam diversificar sua área de atuação energética. Quando cai o preço do barril de petróleo, cresce o interesse em energia renovável, mas também diminui a capacidade das empresas do setor de financiar a transição energética. Além disso, a análise indica que a Petrobras ainda é impactada pelos ciclos presidenciais no Brasil, visto que o maior acionista da companhia é a União.

Como o governo atual sinaliza uma preocupação com o meio ambiente, a empresa tem que dar uma resposta, diz Rocha. “Há um pouco de tática de comunicação, pois as empresas de petróleo estão pressionadas pela agenda ambiental e procuram respostas que permitam melhorar a imagem delas. Mas, por outro lado, ela tem que ter uma ação no longo prazo que permita expansões posteriores”.

A pesquisa do DIP sobre a Petrobras vai na mesma linha de outros estudos sobre as estratégias de companhias da indústria petrolífera ao sugerir que as decisões das empresas são influenciadas por sua nacionalidade e estrutura administrativa. Ela ainda cria uma metodologia de pontos para verificar o quanto a estatal brasileira se engaja em ações de diversificação para a transição energética. Esta pontuação foi necessária tendo em vista a ausência de dados abertos e estruturados sobre o montante de investimentos realizados pela Petrobras em energia renovável ou de baixo carbono.

Nos próximos meses, o DIP publicará um estudo sobre as cadeias vegetais para a produção de biocombustíveis, e outro sobre o mercado de carbono como possível instrumento de política industrial.

Fonte: Agência Bori

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